Interior


A mudança de São Paulo para Piracicaba foi um rompimento. Eu, urbana, descolada, me senti deslocada.
Estranhei o silêncio das madrugadas e em algumas datas comemorativas. Senti falta do barulho dos aviões, dos helicópteros, dos grafites gritantes em cada esquina da Bela Vista, do contraste ácido, do inconsciente mundano. Do 5 a seco tocando "Feliz Pra Cachorro" no carro do João as sextas-feiras.
Aqui o céu é límpido, senti falta do barulho dos passarinhos atormentados na cidade que nunca dorme.
Troquei o caos inebriante, a inquietação catártica pela cidade dos ventos, do calor que invade, da lua que aflora os desejos, do croissant de chocolate da padaria Montelena, das badaladas do sino da igreja.
Piracicaba, próxima do Alto da Serra de São Pedro, da gataria nas caminhadas na ESALQ, do rio que corta a cidade, do orgasmo gastronômico dos restaurantes em Monte Alegre, dos bares da arborizada Rua do Porto, dos vizinhos que armam as suas cadeiras em frente às casas para observar o movimento.
Apesar da saudade latente de São Paulo, quando vim para Piracicaba tive de me reinventar, tomar conta da minha alma, livrar-me do que não me fazia sentir livre. Inventiva, criei uma espécie de ponte-aérea, ao invés de Rio-São Paulo, Piracicaba-São Paulo. E assim sigo transitando, como um viajante do tempo nesse portal multidimensional.
Amor,
A.M


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